Saturday, May 10, 2008

O que faz seus olhos brilharem?

Nos diversos contatos com as pessoas em minha vida diária tenho observado que várias delas vivenciam sérios dilemas entre o que são e o que gostariam de ser profissionalmente. Após refletir sobre o assunto, conclui que isso acontece porque as pessoas se dividem, não são 100% inteiras. Para simplificar a explanação do meu raciocínio, digo que as pessoas se dividem em duas partes. Uma, que aqui chamo de "interior", é mais introspectiva, intuitiva, conectada com a sua verdadeira essência, sendo esta última a fonte e fundamento de suas escolhas. A outra parte, que aqui chamo de "exterior", é mais extrovertida, racional, social, menos conectada com seu verdadeiro eu, levando as pessoas a apoiarem suas escolhas em modelos externos. Praticamente, todo ser humano é dividido em tendências "interiores” e "exteriores", mas o que acaba predominando em nossa sociedade são as "exteriores".
Acredito que isso aconteça porque em nossa civilização ocidental somos acostumados e treinados desde pequenos a olhar para fora, a nos espelhar em modelos conceituados pela sociedade como "ideais". O sucesso é medido apenas pelas conquistas externas, tais como status, bens materiais, quantidade de dinheiro e poder. E sabemos que, em nossa sociedade, estes dois últimos são sinônimos. Somos tão condicionados a valores externos que não temos consciência da extensão da influência que eles têm em nossas vidas. Esquecemos de escutar a nossa alma, o nosso eu interior. Quando nossa alma nos envia sinais, muitas vezes ignoramos ou pensamos que é algo passageiro ou sem importância; ou, se resolvemos dar atenção a esses sinais, ficamos divididos, sem ação, sem saber que direção tomar.
Ainda jovens e inexperientes (na maioria dos casos), somos obrigados a escolher uma profissão que, a princípio, nos acompanhará pelo resto de nossas vidas. E aí, resumidamente, acontecem três tipos de situação:
1ª) a pessoa já tem certo o que quer para a sua vida profissional, porque desde bem jovem já escutava o chamado da alma, já sentia a vocação, o talento para a medicina, a arquitetura, a advocacia, ou qualquer outra profissão considerada "ideal" pela sociedade. E aí, fica mais fácil.
2ª) a pessoa já tem certo o que quer para a sua vida profissional, porque desde bem jovem já sentia a vocação, o talento para ser astrólogo, professor de yoga ou dança, guia turístico... Aí fica mais difícil, pois se a família não o apóia, ele tem de abdicar da sua verdadeira vocação para tentar algo conceituado como "mais promissor", como um curso de administração de empresas, economia, etc.
3ª) a pessoa não sabe o que quer para sua vida profissional, e daí o leque de opções se restringe ao que a sociedade novamente considera como sendo "ideal", profissões que dêem status e que garantam uma boa posição futuramente, de preferência numa grande empresa: engenharia, economia, advocacia, administração de empresas... é só escolher dentre tantas opções.

As situações dois e três são as mais complicadas e, nestes casos, na maioria das vezes, o candidato a futuro profissional embarca nas opções que a sociedade valoriza. E estas opções acabam parecendo interessantes, pois são envolventes, sedutoras e aceitas pela maioria das pessoas. E aquele desejo de seguir uma carreira mais "alternativa" aos olhos da sociedade é colocado de lado, "engavetado"... O chamado da alma é totalmente sufocado em prol do chamado da "sociedade", pois também parece ser mais seguro seguir por um caminho aceito pela maioria. Todo futuro é incerto, mas nestes dois casos a probabilidade do futuro trazer a vivência de um dilema profissional é enorme.
Se não estivermos conscientes das escolhas que fazemos diariamente, acabamos cedendo à tentação dos "modelos sociais". Por isso, é tão importante buscarmos o autoconhecimento e aprendermos a escutar a voz da nossa alma. E a alma envia sinais o tempo todo... A alma é simples, direta. E talvez justamente por isso é que se demora um certo tempo para aprender a ouvi-la. Temos o hábito de complicar tudo, ou quase tudo, pensar demais, racionalizar demais, ponderar demais, analisar demais, exteriorizar demais. Geralmente se aprende a escutar e a dar atenção aos “apelos” da alma conforme nos autoconhecemos e ampliamos a percepção de que a verdadeira sabedoria está na simplicidade. E é dentro de nós mesmos que encontramos todas as respostas.

"Os olhos são os espelhos da alma"
O que nos anima, nos encoraja, nos move e nos realiza é o que faz "nossos olhos brilharem". Joseph Campbell em O Poder do Mito cita: “Persiga aquilo que te traz alegria e não tenha medo, pois portas se abrirão lá onde você não sabia que havia portas". E isso vale para todos os aspectos da vida. Quando você se dedica àquilo que faz seus olhos brilharem, àquilo que vem do fundo da sua alma, você coloca todo seu amor, dedicação, talento, conhecimento. Você está inteiro ali, corpo, mente, alma... E onde quer que você esteja inteiro, pleno, você está vivenciando o Yoga. Não existe mais a cisão. Você, o agir e o objeto de sua ação estão integrados, unidos.
Nesse momento, você está conectado a algo maior, e aí, sem dúvida, “portas se abrirão” onde você menos imagina. E a probabilidade de um futuro promissor, repleto de realização, conquista e sucesso é muito maior justamente por você estar inteiro. Citando Campbell novamente: "Onde quer que você esteja, você estará desfrutando aquele frescor, aquela vida intensa dentro de você, o tempo todo."
Se você vivencia um dilema em sua vida por ter feito opções pressionadas pela sociedade, procure com responsabilidade o equilíbrio entre estas e aquelas que fazem seus olhos brilharem.

O brilho dos nossos olhos é o que deve iluminar os nossos caminhos... Simples assim.

Rio Ganges - Rishikesh, Índia

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"O verdadeiro heroísmo esta em conquistar a sua própria natureza." Provérbio hindu

Sunday, May 4, 2008

O Yoga e o meu blog

A criação do blog aconteceu em decorrência do despertar de uma vontade enorme de me expressar e de compartilhar minhas vivências, aprendizados e experiências. Cada pessoa tem sua história, sua personalidade, sua individualidade, sua alma, portanto, num certo grau, somos todos diferentes um dos outros. Mas temos uma parcela enorme de semelhança, de congruência, de união, pois afinal somos todos seres humanos. E é exatamente neste ponto que acredito e desejo que meus textos aqui expostos tragam frutos, tanto para mim quanto para quem os lê.
Como professora e estudiosa do Yoga, pude aprender muito a respeito dessa filosofia (claro, ainda tenho muito a aprender). O Yoga foi a principal porta que se abriu em minha vida e que me colocou no caminho em direção ao auto-conhecimento, ou seja, em direção à minha verdadeira essência. Um caminho que estou a percorrer e cujo percurso me acompanhará por toda a vida.
Este caminho é longo, diário e exige dedicação, esforço, abnegação, sacrifício, disciplina... e leva à perfeição. Por aí, já se tem uma idéia de quão longo e trabalhoso é este caminho... mas percorrê-lo é também prazeroso e gratificante. E o resultado: a verdadeira liberdade, que se pode alcançar nesta vida... ou não. Mas o que realmente importa é a peregrinação, é percorrer o caminho consciente de cada passo dado, atento à paisagem ao redor, aos detalhes, aos sinais. É estar presente no tempo presente.
Através do Yoga, e de tudo o que a opção por me tornar professora dessa filosofia milenar me traz, é que aqui estou. Meu objetivo é abranger assuntos relacionados ao Yoga - desde a vivência da prática, técnicas, passando pela filosofia, reflexões, ensinamentos, literatura, links, dia-a-dia...
Como seres humanos todos temos as nossas imperfeições, pois por milênios esquecemos de que somos parte da Natureza – digo Natureza com N maiúsculo, pois aqui me refiro ao Universo, ao Todo, a Deus, ao Cosmos, a tudo o que nos cerca. Somos unidos, integrados a Ela. Somos Um. Não dizemos que a Natureza é perfeita? Nós também somos, só que nos esquecemos disso; nos afastamos da Natureza, e assim da nossa verdadeira essência. Ignoramos a Unidade para vivermos na Dualidade.
Estes pensamentos fundamentam o que digo abaixo.

Conhecendo a Índia ou conhecendo a si próprio?
Em dezembro de 2007 / janeiro de 2008 fiz uma viagem de 20 dias para a Índia. Há tempos queria fazer essa viagem, mas ela aconteceu no momento exato. A Índia é um país fascinante, multifacetado, cheio de contrastes, de cores, sabores, aromas, sensações... Um país de uma cultura rica e milenar, com um povo trabalhador, forte e dono de uma sabedoria que ultrapassa milênios, pois é uma sabedoria sobre a própria humanidade.
A Índia invade você através dos cinco sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato de um modo singular e impetuoso. Desperta sensações, sentimentos, pensamentos, percepções e intuições referentes a si próprio e ao mundo ao seu redor. Uma viagem para a Índia faz com que você entre em contato com muitos dos seus fantasmas, medos, projeções... desperta a sua consciência para o fato de que, mesmo você se achando livre de preconceitos, julgamentos, comparações, você percebe que os têm e que faz uso deles... diariamente! Mas isso é o que é mais interessante, pois não é justamente a consciência da existência de algo que faz com que seja possível transformar esse algo? Talvez seja esta a razão pela qual muitas pessoas não conseguem gostar da Índia, e muitas vezes não se sentem à vontade nem para permanecer os dias planejados da viagem - o temor do encontro consigo mesmo?


Trânsito em Nova Delhi


Taj Mahal, em Agra

No caso da Índia a expressão “ou você ama ou você odeia” é perfeita. Para se conhecer a Índia, você tem de estar aberto a tudo, sem julgar, sem comparar, mas sim observar a Índia, absorver a Índia e aprender com ela. Perceber que a Índia é apenas diferente, nem melhor, nem pior. Cessam-se os julgamentos, as comparações, pois somos todos partes de algo maior, originados de uma fonte única - somos Unidade, Natureza. Somente dessa forma, é que você percebe que a Índia também desperta o que há de melhor em você e faz com você se aproxime ainda mais da sua verdadeira essência. É tudo uma questão de se estar aberto a isso.
Por essa razão, essa viagem foi uma experiência marcante, única e que mudou a minha vida. Quando falo ‘mudar a vida’ não me refiro a mudar de roupas, ou de amizades... falo da mudança que acontece em função dessa proximidade maior com o verdadeiro Eu.
A viagem para a Índia fez com que eu avançasse muitos passos no caminho do auto-conhecimento. Sei que ainda tenho muito a trilhar... e o compartilhar as minhas descobertas, vivências e reflexões faz parte desse meu caminho.

Pôr do sol no rio Ganges - Rishikesh

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“Numa peregrinação, a cada passo você está se aproximando de Deus e a cada passo que dê em direção a ele, são dados dez passos dele em direção a você. Quando a estrada termina e o objetivo é cumprido, o peregrino sente que viajou apenas de si para si mesmo e o Deus que encontramos estava o tempo todo dentro de nós, ao redor de nós, conosco e ao nosso lado."
Sri Sathya Sai Baba

“O Universo inteiro é uma família.”
Rig Veda

“Somente o Conhecimento é eterno. Ele não tem início nem fim. Não existe nada fora ele. A aparente diversidade do mundo é resultante da limitação dos sentidos. Quando esta limitação desaparece, apenas o Conhecimento, somente ele, resplandece.”
Shiva Samhita, Cap. I, 1.