Sunday, October 26, 2008

Deepavali - o festival das luzes

27 de outubro de 2008
Deepavali ou Diwali é um dos mais celebrados festivais da Índia. A palavra Deepavali se origina de duas palavras sânscritas: deepa que significa “luz” e Avali que significa “fileira”. Assim, Deepavali é chamado de “o festival das luzes”.
Para se celebrar o Deepavali, os hindus acendem lamparinas, tomam banhos aromáticos, fazem desenhos multicoloridos no chão feitos com farinha de arroz, limpam e decoram as casas, vestem roupas novas, preparam doces em casa, estouram fogos de artifício, e veneram as vacas como sendo encarnações da deusa Lakshmi (deusa da abundância e prosperidade) e Lakshimi Puja (oferenda a Lakshmi).

Existem duas principais estórias relacionadas à mitologia que explicam a importância do Deepavali.

Na primeira estória, o Deepavali significa o retorno de Lord Rama do seu exílio na floresta a seu reino Ayodhya após sua conquista vitoriosa sobre o cruel rei Ravana. Por um longo período Ayodhya foi mergulhada na escuridão quando Rama estava em seu exílio na floresta. Em sua ausência, a radiante Ayodhya foi uma cidade de escuridão, mas as florestas estavam cheias de luz. O retorno de Rama foi saudado pelo povo de Ayodhya como o retorno do esplendor divino e por isso os hindus celebram o evento com lamparinas espalhadas por todo lugar. Esta estória tem importância maior no norte da Índia.

No sul da Índia, Deepavali representa a vitória de Lord Krishna sobre o poderoso asura (demônio) Narakasura. Narakasura se tornou uma ameaça para os deuses no céu e se apoderou dos esplêndidos brincos de Aditi (a Deusa Mãe) e aprisionou as dezesseis mil filhas dos deuses em seu harém. Em desespero os deuses liderados por Indra solicitaram a Lord Krishna para destruir o demônio pois ele estava espalhando destruição. Krishna concordou prontamente e travou uma luta feroz e saiu vitorioso. Isso aconteceu depois que ele aceitou as dezesseis mil donzelas como suas esposas como solicitado por elas mesmas.

O significado por traz dessas estórias mitológicas é que o vilão da estória representa o ego dominado pelos desejos. Em nossas vidas, é o nosso ego e nossos desejos que nos causam transtornos e sofrimentos. Na estória de Lord Krishna, as dezesseis mil donzelas representam nossos inumeráveis desejos. Quando eles são controlados pelo nosso ego eles causam destruição e nos privam de nossa verdadeira felicidade. Mas quando são controlados e sublimados são substituídos pela luz da sabedoria, nos tornando conscientes de que somos divinos e livres do que o mundo dos sentidos tem a nos oferecer.

A chama da lamparina tem duas qualidades. Uma é banir a escuridão, a outra é seu contínuo movimento ascendente. Por essa razão, os sábios veneram a lamparina da sabedoria como a chama que guia os homens para estados superiores. Juntamente com o ato de acender lamparinas externas, o homem deve esforçar-se para acender as lamparinas dentro de si mesmo.

Deepavali é um festival designado a celebrar a supressão do Ego pelo Eu Superior. O homem é mergulhado na escuridão da ignorância e perde seu poder de discriminação entre o permanente e o transitório. Quando a escuridão da ignorância causada por Ahamkara (ego) é dispersada pela luz da Divina sabedoria, o esplendor do Divino é experenciado.

O significado íntimo de Deepavali é guiar o homem da escuridão para a luz. O ser humano é perpetuamente mergulhado na escuridão. Deve então acender uma lamparina que está sempre brilhando dentro de si e levá-la consigo aonde quer que vá, iluminando sempre seu caminho.

"asato ma sadgamaya
tamaso ma jyotirgamaya
mrtyorma amrtam gamaya"
(Brhadaranyaka Upanishad — I.iii.28)

Tradução: Guie-me de “Asat” para “Sat”
Guie-me da escuridão para a luz
Guie-me da morte para a imortalidade”

Sat = existência, realidade, verdade
asat = não-existência, não realidade, não verdade

Saturday, October 4, 2008

Autoconhecimento e Liberdade

Todos anseiam pela liberdade. Claro, seria ótimo simplesmente fazer tudo aquilo que queremos a qualquer momento. Mas isso é realmente liberdade? A verdadeira liberdade é algo mais profundo e que, na verdade, anda de mãos dadas com a responsabilidade e com a consciência de si mesmo, das outras pessoas e do mundo ao nosso redor.

Se por alguma razão existe uma certa pressão ou restrição em algum aspecto da vida, é natural nos sentirmos incomodados e logo clamar pela tal "liberdade". Mas são justamente essas situações que devem levantar a questão sobre o que é a verdadeira liberdade.

Liberdade é uma escolha, e como tal, envolve ganhos e perdas. Por isso, deve ser feita de forma consciente, responsável e verdadeira. E muitas vezes descobrir a verdade é um caminho longo e que exige uma boa dose de esforço e dedicação.

Na maioria das vezes é mais fácil saber o que não queremos. Uma situação que traz aborrecimento, incômodo, irritação faz aflorar dentro de nós o desejo de nos libertarmos dela o mais breve possível. Mas aí fica a questão: "sei muito bem o que eu não quero... mas o que eu realmente quero? O que é que vai me trazer a verdadeira liberdade?"

Quando sabemos o que realmente queremos fica mais fácil optarmos e obtermos a verdadeira liberdade. Mas para se saber o que realmente queremos, a busca pelo autoconhecimento é imprescindível. Não existe outro caminho.

Devemos aprender a escutar de forma profunda e verdadeira qual é a revelação -- ou revelações -- feita pela nossa alma, ou seja, pela nossa verdadeira essência.

Muitas vezes a percepção do queremos hoje é completamente diferente do que quisemos ontem, e muito provavelmente será diferente também do que se desejaremos amanhã. Essa consciência da própria mutabilidade a que todos estamos sujeitos mostra que um certo grau de autoconhecimento já foi alcançado, e isso faz com que as nossas escolhas sejam mais conscientes. A mutabilidade acontece porque não estamos habituados a escutar a nossa alma, mas sim, a nossa mente.

O que a mente deseja é passageiro, é temporário. Uma vez alcançado o objeto desse desejo, logo outro aparece. É um caminho sem fim. O desejo mutável é aquele que nasce da nossa mente, que se baseia em expectativas e anseios em relação a objetos externos.

O que a alma nos revela é eterno. Essa revelação estará sempre presente pois se baseia em algo que está dentro de nós, que é parte da nossa verdadeira essência. Nossa alma é que nos mostra o caminho da verdadeira liberdade. Por ser uma liberdade consciente e verdadeira ela é também abrangente e envolve a tudo e a todos ao seu redor.

A alma é mais sutil do que a mente. Para escutá-la de verdade é imprescindível aquietar a mente. Neste caso, o caminho a ser trilhado é o da meditação que deve ser praticada com despojamento de valores e atitudes.

É importante não confundir as revelações feitas pela nossa alma com os apelos da mente. Cabe a cada um de nós a capacidade de distingui-los. Essa capacidade se desenvolve naturalmente à medida que progredimos no caminho do autoconhecimento. Quando se é verdadeiramente livre, não existe situação externa, qualquer que seja, que afete esse estado de liberdade.

Liberdade verdadeira é um estado permanente pois se origina na nossa alma que é uma parte da grande Alma Universal, que é imutável e eterna.

O autoconhecimento e a liberdade são
obtidos através das revelações feitas pela nossa verdadeira essência.

Wednesday, September 10, 2008

Ásana - parte 3

Outro tipo de sentimento que pode ocorrer na tentativa de execução do ásana é a pressa em executá-lo. Na ansiedade de querer dominar a postura o não prestar atenção a detalhes como posicionamento correto de articulações, intensidade do relaxamento ou contração da musculatura, entre outros, pode ocasionar lesões ao corpo, às vezes sérias.


O imediatismo é uma característica marcante dos nossos tempos, e é bem possível trazê-lo para a sala de prática. A sugestão então é aproveitar o momento da sua prática para exercer o "não-imediatismo": observando-se em cada passo para execução da postura, percebendo todo o corpo, a respiração, o alinhamento, onde você concentra a energia e o esforço para a execução, as sensações e as emoções que tomam conta de você durante todo o processo de execução do ásana.

Limites existem para serem conhecidos e respeitados. O desejo de superá-los é algo saudável, mas deve-se ter em mente que muitas vezes esse desejo pode não corresponder à sua viabilidade. Observe-se e perceba se a superação do limite, num determinado momento ou situação, é possível. Se não for, simplesmente aceite isso.


Observe se você não está valorizando demais o limite que, a princípio não pode ser superado, em detrimento de alguma potencialidade sua, algo que você tem e que pode desenvolver ainda mais. Preste atenção a isso, observe-se. O prestar atenção a cada detalhe, o estar presente 100% no "aqui e agora" é o que proporciona um maior conhecimento do seu corpo e de si próprio - auto-conhecimento baseado em respeito e aceitação.


"Dê me serenidade para aceitar as coisas que não posso
mudar, coragem para mudar as coisas que posso e
sabedoria para reconhecer a diferença". Reinhold Niebuhr

Sunday, June 22, 2008

Ásana - parte 2

Diante de um ásana considerado “difícil” pelo praticante diversos sentimentos tomam conta de sua mente e corpo. Muitas vezes, a primeira reação é não acreditar que é capaz de executa-lo. Talvez num primeiro momento, equilibrar-se sobre apenas um pé ou sobre as duas mãos, ou ficar de ponta-cabeça, por exemplo, possa parecer algo “impossível” para quem nunca executou algo do tipo.

Sentimentos como medo e insegurança muitas vezes estão guardados no inconsciente, e o fato de traze-los à consciência pode desencadear reações como fuga e desistência justamente para não ter de lidar com seus limites e potencialidades.

O importante não é executar o ásana inteiro, mas executá-lo com prudência e consciência, passo a passo, ouvindo o seu corpo o tempo todo. Ficar atento às sensações – em músculos e em articulações; à cada detalhe do alinhamento – uma pequena alteração no posicionamento dos cotovelos, por exemplo, quando na execução do sirshásana (invertida sobre a cabeça); à respiração – que deve fluir consciente o tempo todo; ao conforto e à estabilidade; e aos sentimentos relacionados ao sucesso ou não que o ásana desperta em você (satisfação, frustração, domínio, irritação...)

À princípio, pode parecer muita coisa ao mesmo tempo para se prestar atenção, mas com a prática seu corpo e mente assimilam esse aprendizado e então tudo flui naturalmente.



Yoga é autoconhecimento, portanto lidar com sentimentos, limites e potencialidades é parte essencial da prática.

É somente a partir da tentativa – ou tentativas – que você poderá executar o ásana dando o melhor de si. E "melhor de si" não é necessariamente a execução do ásana completo, como talvez execute seu instrutor ou seu companheiro de prática, mas aquele que você executa com consciência, escutando seu corpo, atento a cada sensação, à respiração. Aquele que você executa totalmente concentrado no que faz, presente no "aqui e agora", respeitando seus limites e explorando suas potencialidades; onde você está inteiro vivenciando a unidade corpo-mente, sentindo-se firme e confortável (no espaço ao lado coloco um breve texto sobre Patanjali, filósofo indiano que conceitua o ásana).


Abaixo seguem algumas dicas para a execução do ásana:
- para iniciar a realização do ásana observe primeiro o seu instrutor executando-o, fique atento aos detalhes do alinhamento do corpo, posicionamento de mãos, pés e cabeça, etc
- ouça com atenção às instruções
- quando for executar o ásana sinta efetivamente cada parte do seu corpo, perceba o que seu corpo quer te dizer – observe o seu próprio alinhamento, as sensações em articulações e músculos
- a respiração deve fluir consciente o tempo todo
- procure 'relaxar no esforço' observando se você não está contraindo músculos que não precisam estar tensos
- permaneça na postura, no limite do seu conforto e sempre respeitando seu corpo - a permanência é uma das características do ásana
- observe seus sentimentos e pensamentos
- esteja apenas no “aqui e agora”
- dê o melhor de si... você é o próprio ásana

E lembre-se que todo aprendizado que você adquire durante a prática de yoga, você leva para a sua vida "lá fora".

O tema ásana continua no próximo texto.

Namastê!

"Penetrado do espírito de yoga, ó príncipe, realiza os teus trabalhos e mantém-te em sereno equilíbrio, na certeza de que tanto o sucesso quanto o insucesso são bons. Essa serenidade interior é o yoga." Bhagavad Gita, cap. II, 48.

"Sem fé não há esforço. Sem esforço não há realização." Sarvavedanta Siddhanta Sarasamgraha

Saturday, June 7, 2008

Ásana

Como professora de Yoga, convivo com vários tipos de praticantes, o que é, sem dúvida, uma experiência muito gratificante e enriquecedora.

Entre tantas histórias, personalidades e situações diferentes, aprendo muito sobre o mundo, as pessoas e sobre mim mesma. Vez ou outra, ouço o comentário: "aprendo muito com a prática do Yoga". É muito bom saber que o Yoga faz parte da vida dos meus alunos. E se isso acontece, é porque existe, por parte do praticante, uma receptividade em relação aos ensinamentos dessa filosofia prática milenar.

Uma das técnicas mais conhecidas do Yoga são as posturas, ou técnicas corporais, cujo nome original em sânscrito é ásana. No decorrer das práticas, durante a execução dos ásanas, ouço comentários do tipo: "que postura difícil!", ou então "nunca vou conseguir fazer esse ásana!". O fato de lidar com uma postura diferente – equilibrar-se apenas sobre as mãos, ficar de ponta cabeça, rotar a coluna, etc – a qual o praticante, especialmente o iniciante, nunca pensou que um dia fosse tentar executar, talvez acione uma reação como essa.


O corpo e a mente condicionados a uma rotina “normal” não estão acostumados a este tipo de acontecimento (lembrando que corpo e mente são uma unidade, integrados, e que os ásanas são ferramentas vivenciais dessa unidade). E muitas vezes a primeira reação frente a uma situação como essa é negar, fugir, não acreditar. O velho medo do desconhecido e de lidar com seus próprios limites e, principalmente, lidar com suas próprias potencialidades. Sim, muitas pessoas, mesmo sem saber, têm mais medo do sucesso do que do fracasso (no quadro ao lado, coloquei um texto Marianne Williamson que fala sobre esse tema). Existe também um outro tipo de reação: a pressa em realizar a postura, reflexo do imediatismo tão comum em nossa sociedade moderna.

A auto-observação constante é “pré-requisito” do praticante de Yoga. Os sentimentos, questionamentos, escolhas e atitudes tomadas dentro da sala de prática são uma réplica do que se vivencia no “mundo lá fora”. E, como uma roda que gira sem parar, o caminho inverso também acontece: os sentimentos, questionamentos, escolhas e atitudes tomadas dentro da sala de prática são expandidas pro “mundo lá fora”. Por isso o Yoga é algo que faz parte da vida do praticante 24 horas por dia e não apenas naquele momento em que se está presente na sala de prática.

No próximo texto darei continuidade ao tema ásana.

Namastê!


"Aquele que percebe a verdade do corpo pode vir a conhecer a verdade do Universo."

Ratnasara



Saturday, May 10, 2008

O que faz seus olhos brilharem?

Nos diversos contatos com as pessoas em minha vida diária tenho observado que várias delas vivenciam sérios dilemas entre o que são e o que gostariam de ser profissionalmente. Após refletir sobre o assunto, conclui que isso acontece porque as pessoas se dividem, não são 100% inteiras. Para simplificar a explanação do meu raciocínio, digo que as pessoas se dividem em duas partes. Uma, que aqui chamo de "interior", é mais introspectiva, intuitiva, conectada com a sua verdadeira essência, sendo esta última a fonte e fundamento de suas escolhas. A outra parte, que aqui chamo de "exterior", é mais extrovertida, racional, social, menos conectada com seu verdadeiro eu, levando as pessoas a apoiarem suas escolhas em modelos externos. Praticamente, todo ser humano é dividido em tendências "interiores” e "exteriores", mas o que acaba predominando em nossa sociedade são as "exteriores".
Acredito que isso aconteça porque em nossa civilização ocidental somos acostumados e treinados desde pequenos a olhar para fora, a nos espelhar em modelos conceituados pela sociedade como "ideais". O sucesso é medido apenas pelas conquistas externas, tais como status, bens materiais, quantidade de dinheiro e poder. E sabemos que, em nossa sociedade, estes dois últimos são sinônimos. Somos tão condicionados a valores externos que não temos consciência da extensão da influência que eles têm em nossas vidas. Esquecemos de escutar a nossa alma, o nosso eu interior. Quando nossa alma nos envia sinais, muitas vezes ignoramos ou pensamos que é algo passageiro ou sem importância; ou, se resolvemos dar atenção a esses sinais, ficamos divididos, sem ação, sem saber que direção tomar.
Ainda jovens e inexperientes (na maioria dos casos), somos obrigados a escolher uma profissão que, a princípio, nos acompanhará pelo resto de nossas vidas. E aí, resumidamente, acontecem três tipos de situação:
1ª) a pessoa já tem certo o que quer para a sua vida profissional, porque desde bem jovem já escutava o chamado da alma, já sentia a vocação, o talento para a medicina, a arquitetura, a advocacia, ou qualquer outra profissão considerada "ideal" pela sociedade. E aí, fica mais fácil.
2ª) a pessoa já tem certo o que quer para a sua vida profissional, porque desde bem jovem já sentia a vocação, o talento para ser astrólogo, professor de yoga ou dança, guia turístico... Aí fica mais difícil, pois se a família não o apóia, ele tem de abdicar da sua verdadeira vocação para tentar algo conceituado como "mais promissor", como um curso de administração de empresas, economia, etc.
3ª) a pessoa não sabe o que quer para sua vida profissional, e daí o leque de opções se restringe ao que a sociedade novamente considera como sendo "ideal", profissões que dêem status e que garantam uma boa posição futuramente, de preferência numa grande empresa: engenharia, economia, advocacia, administração de empresas... é só escolher dentre tantas opções.

As situações dois e três são as mais complicadas e, nestes casos, na maioria das vezes, o candidato a futuro profissional embarca nas opções que a sociedade valoriza. E estas opções acabam parecendo interessantes, pois são envolventes, sedutoras e aceitas pela maioria das pessoas. E aquele desejo de seguir uma carreira mais "alternativa" aos olhos da sociedade é colocado de lado, "engavetado"... O chamado da alma é totalmente sufocado em prol do chamado da "sociedade", pois também parece ser mais seguro seguir por um caminho aceito pela maioria. Todo futuro é incerto, mas nestes dois casos a probabilidade do futuro trazer a vivência de um dilema profissional é enorme.
Se não estivermos conscientes das escolhas que fazemos diariamente, acabamos cedendo à tentação dos "modelos sociais". Por isso, é tão importante buscarmos o autoconhecimento e aprendermos a escutar a voz da nossa alma. E a alma envia sinais o tempo todo... A alma é simples, direta. E talvez justamente por isso é que se demora um certo tempo para aprender a ouvi-la. Temos o hábito de complicar tudo, ou quase tudo, pensar demais, racionalizar demais, ponderar demais, analisar demais, exteriorizar demais. Geralmente se aprende a escutar e a dar atenção aos “apelos” da alma conforme nos autoconhecemos e ampliamos a percepção de que a verdadeira sabedoria está na simplicidade. E é dentro de nós mesmos que encontramos todas as respostas.

"Os olhos são os espelhos da alma"
O que nos anima, nos encoraja, nos move e nos realiza é o que faz "nossos olhos brilharem". Joseph Campbell em O Poder do Mito cita: “Persiga aquilo que te traz alegria e não tenha medo, pois portas se abrirão lá onde você não sabia que havia portas". E isso vale para todos os aspectos da vida. Quando você se dedica àquilo que faz seus olhos brilharem, àquilo que vem do fundo da sua alma, você coloca todo seu amor, dedicação, talento, conhecimento. Você está inteiro ali, corpo, mente, alma... E onde quer que você esteja inteiro, pleno, você está vivenciando o Yoga. Não existe mais a cisão. Você, o agir e o objeto de sua ação estão integrados, unidos.
Nesse momento, você está conectado a algo maior, e aí, sem dúvida, “portas se abrirão” onde você menos imagina. E a probabilidade de um futuro promissor, repleto de realização, conquista e sucesso é muito maior justamente por você estar inteiro. Citando Campbell novamente: "Onde quer que você esteja, você estará desfrutando aquele frescor, aquela vida intensa dentro de você, o tempo todo."
Se você vivencia um dilema em sua vida por ter feito opções pressionadas pela sociedade, procure com responsabilidade o equilíbrio entre estas e aquelas que fazem seus olhos brilharem.

O brilho dos nossos olhos é o que deve iluminar os nossos caminhos... Simples assim.

Rio Ganges - Rishikesh, Índia

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"O verdadeiro heroísmo esta em conquistar a sua própria natureza." Provérbio hindu

Sunday, May 4, 2008

O Yoga e o meu blog

A criação do blog aconteceu em decorrência do despertar de uma vontade enorme de me expressar e de compartilhar minhas vivências, aprendizados e experiências. Cada pessoa tem sua história, sua personalidade, sua individualidade, sua alma, portanto, num certo grau, somos todos diferentes um dos outros. Mas temos uma parcela enorme de semelhança, de congruência, de união, pois afinal somos todos seres humanos. E é exatamente neste ponto que acredito e desejo que meus textos aqui expostos tragam frutos, tanto para mim quanto para quem os lê.
Como professora e estudiosa do Yoga, pude aprender muito a respeito dessa filosofia (claro, ainda tenho muito a aprender). O Yoga foi a principal porta que se abriu em minha vida e que me colocou no caminho em direção ao auto-conhecimento, ou seja, em direção à minha verdadeira essência. Um caminho que estou a percorrer e cujo percurso me acompanhará por toda a vida.
Este caminho é longo, diário e exige dedicação, esforço, abnegação, sacrifício, disciplina... e leva à perfeição. Por aí, já se tem uma idéia de quão longo e trabalhoso é este caminho... mas percorrê-lo é também prazeroso e gratificante. E o resultado: a verdadeira liberdade, que se pode alcançar nesta vida... ou não. Mas o que realmente importa é a peregrinação, é percorrer o caminho consciente de cada passo dado, atento à paisagem ao redor, aos detalhes, aos sinais. É estar presente no tempo presente.
Através do Yoga, e de tudo o que a opção por me tornar professora dessa filosofia milenar me traz, é que aqui estou. Meu objetivo é abranger assuntos relacionados ao Yoga - desde a vivência da prática, técnicas, passando pela filosofia, reflexões, ensinamentos, literatura, links, dia-a-dia...
Como seres humanos todos temos as nossas imperfeições, pois por milênios esquecemos de que somos parte da Natureza – digo Natureza com N maiúsculo, pois aqui me refiro ao Universo, ao Todo, a Deus, ao Cosmos, a tudo o que nos cerca. Somos unidos, integrados a Ela. Somos Um. Não dizemos que a Natureza é perfeita? Nós também somos, só que nos esquecemos disso; nos afastamos da Natureza, e assim da nossa verdadeira essência. Ignoramos a Unidade para vivermos na Dualidade.
Estes pensamentos fundamentam o que digo abaixo.

Conhecendo a Índia ou conhecendo a si próprio?
Em dezembro de 2007 / janeiro de 2008 fiz uma viagem de 20 dias para a Índia. Há tempos queria fazer essa viagem, mas ela aconteceu no momento exato. A Índia é um país fascinante, multifacetado, cheio de contrastes, de cores, sabores, aromas, sensações... Um país de uma cultura rica e milenar, com um povo trabalhador, forte e dono de uma sabedoria que ultrapassa milênios, pois é uma sabedoria sobre a própria humanidade.
A Índia invade você através dos cinco sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato de um modo singular e impetuoso. Desperta sensações, sentimentos, pensamentos, percepções e intuições referentes a si próprio e ao mundo ao seu redor. Uma viagem para a Índia faz com que você entre em contato com muitos dos seus fantasmas, medos, projeções... desperta a sua consciência para o fato de que, mesmo você se achando livre de preconceitos, julgamentos, comparações, você percebe que os têm e que faz uso deles... diariamente! Mas isso é o que é mais interessante, pois não é justamente a consciência da existência de algo que faz com que seja possível transformar esse algo? Talvez seja esta a razão pela qual muitas pessoas não conseguem gostar da Índia, e muitas vezes não se sentem à vontade nem para permanecer os dias planejados da viagem - o temor do encontro consigo mesmo?


Trânsito em Nova Delhi


Taj Mahal, em Agra

No caso da Índia a expressão “ou você ama ou você odeia” é perfeita. Para se conhecer a Índia, você tem de estar aberto a tudo, sem julgar, sem comparar, mas sim observar a Índia, absorver a Índia e aprender com ela. Perceber que a Índia é apenas diferente, nem melhor, nem pior. Cessam-se os julgamentos, as comparações, pois somos todos partes de algo maior, originados de uma fonte única - somos Unidade, Natureza. Somente dessa forma, é que você percebe que a Índia também desperta o que há de melhor em você e faz com você se aproxime ainda mais da sua verdadeira essência. É tudo uma questão de se estar aberto a isso.
Por essa razão, essa viagem foi uma experiência marcante, única e que mudou a minha vida. Quando falo ‘mudar a vida’ não me refiro a mudar de roupas, ou de amizades... falo da mudança que acontece em função dessa proximidade maior com o verdadeiro Eu.
A viagem para a Índia fez com que eu avançasse muitos passos no caminho do auto-conhecimento. Sei que ainda tenho muito a trilhar... e o compartilhar as minhas descobertas, vivências e reflexões faz parte desse meu caminho.

Pôr do sol no rio Ganges - Rishikesh

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“Numa peregrinação, a cada passo você está se aproximando de Deus e a cada passo que dê em direção a ele, são dados dez passos dele em direção a você. Quando a estrada termina e o objetivo é cumprido, o peregrino sente que viajou apenas de si para si mesmo e o Deus que encontramos estava o tempo todo dentro de nós, ao redor de nós, conosco e ao nosso lado."
Sri Sathya Sai Baba

“O Universo inteiro é uma família.”
Rig Veda

“Somente o Conhecimento é eterno. Ele não tem início nem fim. Não existe nada fora ele. A aparente diversidade do mundo é resultante da limitação dos sentidos. Quando esta limitação desaparece, apenas o Conhecimento, somente ele, resplandece.”
Shiva Samhita, Cap. I, 1.