Sunday, June 22, 2008

Ásana - parte 2

Diante de um ásana considerado “difícil” pelo praticante diversos sentimentos tomam conta de sua mente e corpo. Muitas vezes, a primeira reação é não acreditar que é capaz de executa-lo. Talvez num primeiro momento, equilibrar-se sobre apenas um pé ou sobre as duas mãos, ou ficar de ponta-cabeça, por exemplo, possa parecer algo “impossível” para quem nunca executou algo do tipo.

Sentimentos como medo e insegurança muitas vezes estão guardados no inconsciente, e o fato de traze-los à consciência pode desencadear reações como fuga e desistência justamente para não ter de lidar com seus limites e potencialidades.

O importante não é executar o ásana inteiro, mas executá-lo com prudência e consciência, passo a passo, ouvindo o seu corpo o tempo todo. Ficar atento às sensações – em músculos e em articulações; à cada detalhe do alinhamento – uma pequena alteração no posicionamento dos cotovelos, por exemplo, quando na execução do sirshásana (invertida sobre a cabeça); à respiração – que deve fluir consciente o tempo todo; ao conforto e à estabilidade; e aos sentimentos relacionados ao sucesso ou não que o ásana desperta em você (satisfação, frustração, domínio, irritação...)

À princípio, pode parecer muita coisa ao mesmo tempo para se prestar atenção, mas com a prática seu corpo e mente assimilam esse aprendizado e então tudo flui naturalmente.



Yoga é autoconhecimento, portanto lidar com sentimentos, limites e potencialidades é parte essencial da prática.

É somente a partir da tentativa – ou tentativas – que você poderá executar o ásana dando o melhor de si. E "melhor de si" não é necessariamente a execução do ásana completo, como talvez execute seu instrutor ou seu companheiro de prática, mas aquele que você executa com consciência, escutando seu corpo, atento a cada sensação, à respiração. Aquele que você executa totalmente concentrado no que faz, presente no "aqui e agora", respeitando seus limites e explorando suas potencialidades; onde você está inteiro vivenciando a unidade corpo-mente, sentindo-se firme e confortável (no espaço ao lado coloco um breve texto sobre Patanjali, filósofo indiano que conceitua o ásana).


Abaixo seguem algumas dicas para a execução do ásana:
- para iniciar a realização do ásana observe primeiro o seu instrutor executando-o, fique atento aos detalhes do alinhamento do corpo, posicionamento de mãos, pés e cabeça, etc
- ouça com atenção às instruções
- quando for executar o ásana sinta efetivamente cada parte do seu corpo, perceba o que seu corpo quer te dizer – observe o seu próprio alinhamento, as sensações em articulações e músculos
- a respiração deve fluir consciente o tempo todo
- procure 'relaxar no esforço' observando se você não está contraindo músculos que não precisam estar tensos
- permaneça na postura, no limite do seu conforto e sempre respeitando seu corpo - a permanência é uma das características do ásana
- observe seus sentimentos e pensamentos
- esteja apenas no “aqui e agora”
- dê o melhor de si... você é o próprio ásana

E lembre-se que todo aprendizado que você adquire durante a prática de yoga, você leva para a sua vida "lá fora".

O tema ásana continua no próximo texto.

Namastê!

"Penetrado do espírito de yoga, ó príncipe, realiza os teus trabalhos e mantém-te em sereno equilíbrio, na certeza de que tanto o sucesso quanto o insucesso são bons. Essa serenidade interior é o yoga." Bhagavad Gita, cap. II, 48.

"Sem fé não há esforço. Sem esforço não há realização." Sarvavedanta Siddhanta Sarasamgraha

Saturday, June 7, 2008

Ásana

Como professora de Yoga, convivo com vários tipos de praticantes, o que é, sem dúvida, uma experiência muito gratificante e enriquecedora.

Entre tantas histórias, personalidades e situações diferentes, aprendo muito sobre o mundo, as pessoas e sobre mim mesma. Vez ou outra, ouço o comentário: "aprendo muito com a prática do Yoga". É muito bom saber que o Yoga faz parte da vida dos meus alunos. E se isso acontece, é porque existe, por parte do praticante, uma receptividade em relação aos ensinamentos dessa filosofia prática milenar.

Uma das técnicas mais conhecidas do Yoga são as posturas, ou técnicas corporais, cujo nome original em sânscrito é ásana. No decorrer das práticas, durante a execução dos ásanas, ouço comentários do tipo: "que postura difícil!", ou então "nunca vou conseguir fazer esse ásana!". O fato de lidar com uma postura diferente – equilibrar-se apenas sobre as mãos, ficar de ponta cabeça, rotar a coluna, etc – a qual o praticante, especialmente o iniciante, nunca pensou que um dia fosse tentar executar, talvez acione uma reação como essa.


O corpo e a mente condicionados a uma rotina “normal” não estão acostumados a este tipo de acontecimento (lembrando que corpo e mente são uma unidade, integrados, e que os ásanas são ferramentas vivenciais dessa unidade). E muitas vezes a primeira reação frente a uma situação como essa é negar, fugir, não acreditar. O velho medo do desconhecido e de lidar com seus próprios limites e, principalmente, lidar com suas próprias potencialidades. Sim, muitas pessoas, mesmo sem saber, têm mais medo do sucesso do que do fracasso (no quadro ao lado, coloquei um texto Marianne Williamson que fala sobre esse tema). Existe também um outro tipo de reação: a pressa em realizar a postura, reflexo do imediatismo tão comum em nossa sociedade moderna.

A auto-observação constante é “pré-requisito” do praticante de Yoga. Os sentimentos, questionamentos, escolhas e atitudes tomadas dentro da sala de prática são uma réplica do que se vivencia no “mundo lá fora”. E, como uma roda que gira sem parar, o caminho inverso também acontece: os sentimentos, questionamentos, escolhas e atitudes tomadas dentro da sala de prática são expandidas pro “mundo lá fora”. Por isso o Yoga é algo que faz parte da vida do praticante 24 horas por dia e não apenas naquele momento em que se está presente na sala de prática.

No próximo texto darei continuidade ao tema ásana.

Namastê!


"Aquele que percebe a verdade do corpo pode vir a conhecer a verdade do Universo."

Ratnasara